Concepção de fracasso escolar vai muito além dos índices de evasão e reprovação

Dissertação de mestrado investiga o que a escola significa para estudantes socioeconomicamente vulneráveis

Para a experiência educativa, é fundamental ver sentido na trajetória escolar (Foto: Caco Argemi/CPERS - Sindicato)

Mais do que frequentar a escola, é preciso que o estudante atribua sentido a isso. É o que propõe Wellington de Carvalho Pereira, pesquisador da Faculdade de Educação (FE) da USP, em sua dissertação de mestrado intitulada Os Sentidos da Escola Pública para os Segmentos de Classes Subalternizadas: possíveis significados do sucesso-fracasso escolar, defendida em março de 2023. 

Ao trabalhar a ideia de sentido escolar, Pereira se inspirou em sua própria história de vida. “Comecei a pensar na questão do significado principalmente pela minha história. Na faculdade, via o pessoal comentando sobre o ensino médio e não tinha lembranças da escola, para mim ela não fez sentido”, conta o pesquisador. 

Ele defende a existência de um capital cultural legitimado pela escola e que não dialoga com as vivências de todos os estudantes. “É essa alta cultura, por exemplo a gramática, usar termos corretos, que torna o estudante num potencial sucesso. Essa é a noção que permeia toda a escola. Os mecanismos de avaliação, por exemplo, não são pautados pelo cotidiano, pelo conhecimento popular, pela empiria e o conhecimento prático.”  

A metodologia da dissertação se baseou no acompanhamento etnográfico, com entrevistas semiestruturadas e revisão bibliográfica. Sobretudo para um tema como esse, ouvir as interpretações dos estudantes é essencial. “Educandas e educandos podem entender que fracasso escolar seja cumprir 12 anos de escolarização, apresentar notas satisfatórias, mas, ainda assim, não poder escolher um trabalho que o satisfaça minimamente e no qual ele ou ela se reconheça em sua expressão criativa”, escreve Pereira em uma das páginas de seu trabalho. 

Definições

O que se chama de fracasso escolar assume diferentes formas a depender de quem afeta, afinal, não é possível pensar a escola isolada da sociedade. “Algumas visões que a gente acaba atribuindo automaticamente à escola e ao processo de escolarização, na verdade, são frutos de relações mais amplas”. 

Pereira reitera que, ao trazer o conceito de fracasso, não se refere à reprovação ou evasão. “Isso é insuficiente para definir fracassos, porque ele é social.” O pesquisador toma como exemplo a escola que foi seu objeto de estudo. “O estudante pode até sair dessa escola com as notas altas, mas ele vem já com um certo estigma para o mercado de trabalho, porque vem de escola pública, e uma escola pública de periferia, em que o diploma de ensino médio não representa muita coisa”, diz. “Esse fracasso não é interno, ainda que possa ser pensado internamente a escola. Ele é social e independentemente se o estudante tiver quatro reprovações e notas baixas ou se tiver o melhor boletim do mundo”, completa. “Por vir dessa escola, ele já está em desvantagem.” 

Diplomas têm menos peso à medida que o estudante não atribui sentido à escola [Foto: Pavel Danilyuk/Pexels]

Mercado de trabalho e diplomas insuficientes

No Brasil, a mudança de uma sociedade rural e agrária para uma semi industrializada exigiu mão de obra cada vez mais qualificada, levando mais pessoas à procura da escola, cujo objetivo se tornou preparar o educando de forma quase exclusiva para o mercado de trabalho e, posteriormente, para a universidade. “Quando eu falo da empregabilidade, considero que a gente está numa conjuntura socioeconômica específica que torna o trabalho humano em emprego”, explica. O pesquisador relata ter ouvido, durante o trabalho de campo, que a formação escolar é uma obrigação, e considera que isso pode ser uma das razões do afastamento de alguns estudantes. 

Diante disso, é difícil imaginar a existência de uma escola que não se organize em torno da empregabilidade. Um dos objetivos da pesquisa foi trazer esse dilema para a discussão, a fim de melhor analisar o contexto do fracasso escolar. “Da mesma forma que a gente precisa criticar uma escola tecnicista, não podemos esquecer que o emprego é importante para uma classe que está em condições de vulnerabilidade.”

O pesquisador aponta também para o aspecto negativo da universalização da escola. Com o acesso expandido a todos, o fracasso ou o sucesso passam a ser responsabilidades do estudante, contribuindo para a ideia da meritocracia. 

Junto a isso, a valorização do diploma de algumas universidades em detrimento de outras de menor prestígio social, bem como a pouca garantia de bons salários advindos da qualificação profissional esvazia ainda mais o sentido para os educandos. 

São muitos aspectos a serem abordados para entender o assunto, que continua em debate e cuja dissertação aqui citada não pretende solucionar completamente. Pereira reforça isso: “A minha contribuição foi retribuir para aquela própria comunidade que colaborou com a pesquisa, desenvolver uma cartilha com reflexões e alguns resultados. Outra contribuição foi colocar em reflexão a escola pública, suas potencialidades e fragilidades.”

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