Estabelecimento de protocolo auxilia no armazenamento de enxertos autógenos

Através da identificação de falhas nos registros, grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP estabelece protocolo para armazenamento de tecidos humanos, utilizados em procedimentos no setor de Queimados do Hospital das Clínicas

Procedimento cirúrgico em que um cirurgião passa um objeto para outro profissional. Os quatro profissionais estão com vestimentas cirúrgicas azuis e a luz emanada do local operada destaca a imagem.
Muito utilizado durante a 2ª Guerra Mundial, o enxerto de pele autólogo é submetido a procedimentos específicos de armazenamento. Imagem: Reprodução/Freepik

O enxerto de pele autólogo é um procedimento cirúrgico realizado há mais de 100 anos para recuperação de pacientes vítimas de queimaduras severas. Nestes casos, parte do tecido do paciente é retirado e utilizado para cobertura de suas próprias feridas.

Entretanto, durante a intervenção, o cirurgião pode constatar que o local de recebimento do enxerto não se encontra preparado ou que houve excesso na retirada de pele, necessitando do armazenamento do material.

Assim, para evitar contaminações e garantir a estocagem e conservação adequada, o material precisa estar devidamente refrigerado, em temperatura ideal, por até 14 dias.

Método usado frequentemente durante a Segunda Guerra Mundial, o enxerto de pele autólogo foi tema de muitos estudos que buscavam encontrar uma forma efetiva de armazenar a pele e evitar contaminações que, por vezes, derivam de bactérias naturais da pele humana.

Com a meta de melhorar os procedimentos para a preservação destes tecidos humanos, um grupo de pesquisadores da FM analisou 88 amostras de enxertos de pele autólogos retirados na Unidade de Queimados do Instituto Central (IC), o qual faz parte do Hospital das Clínicas (HC), e estabeleceu um protocolo que garantisse a qualidade do armazenamento e preservação do tecido.

Sobre o estudo

Realizado entre 2015 e 2016, o artigo Estabelecimento de protocolo para armazenamento de pele autógena refrigerada traz a descrição do processo de preservação e armazenamento de 88 amostras de pele de pacientes que sofreram queimaduras de segundo e terceiro grau e que necessitaram de enxerto autólogo dentro da unidade.

Observando todos os processos de degermação (remoção/redução de bactérias), preservação e análise microbiológica, os pesquisadores puderam traçar pontos críticos encontrados durante a estocagem do material. 

Dentre as amostras, 50 delas foram descartadas do estudo por coleta inadequada das biópsias microbiológicas. Das 38 restantes e que foram estudadas, 34 estavam contaminadas, sendo 2 na fase pós-armazenamento e somente 4 não tinham contaminação.

De acordo com a pesquisa, os principais microrganismos encontrados foram Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus faecalis, Klebsiella pneumoniae e Staphylococcus coagulCase negativo, sendo estes os agentes mais comuns em grandes queimados.

Proposta do estudo

Entre os pontos críticos destacados no estudo, o grupo enfatizou a inadequação dos registros sobre os processos – o que ocasionava o extrapolamento do prazo de armazenamento e não descarte -, bem como a falta na coleta de culturas microbiológicas no pré e pós-armazenamento. 

Além disso, identificou-se a necessidade de adquirir um equipamento de refrigeração científica, uma vez que o aparelho utilizado anteriormente era de uso doméstico e sofria constantes oscilações de temperatura, proporcionando condições para o crescimento de bactérias. Estas oscilações explicariam os dois casos de crescimento bacteriano encontrados exclusivamente no pós-armazenamento. 

Com base nas informações coletadas, os pesquisadores definiram o enfermeiro como o profissional a ser responsável pelo controle de preservação e armazenamento dos enxertos, uma vez que há envolvimento do profissional na preparação do kit de armazenagem e no controle da refrigeração. Em entrevista à Agência Universitária de Notícias (AUN), a pesquisadora, biomédica, e pós-graduada em Captação, Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos, Renata Oliveira, afirma que com a colaboração da enfermagem foi possível desenvolver um documento, chamado Procedimento Operacional Padrão “POP”. que detalha o passo a passo e garante que os envolvidos consigam realizar os procedimentos de forma padronizada, diminuindo os desvios e garantindo a qualidade.

Diferença entre a doação de pele

Vale destacar que as condições de armazenamento do enxerto de pele autólogo diferem dos tecidos destinados à doação. “No Banco de Tecidos ICHC são manipulados aloenxertos de pele que foram adquiridos através do processo de doação. Esse processo ocorre quando o paciente é diagnosticado com morte encefálica e pode torna-se um potencial doador de órgãos e tecidos”, explica Renata. “Esse processo inicia-se com a entrevista familiar e, após este esclarecimentos, temos a doação [caso seja a decisão da família]”.  Assim, após uma análise criteriosa de histórico clínico, social e exames sorológicos do doador, o Banco de Tecidos realiza a retirada de pele, que será processada e preservada em glicerol, tornando-se enxerto de pele alógena com validade de até 24 meses.

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