Avanço do imperialismo impulsionou o processo de desestabilização política na América Latina

Pesquisa analisa dependência política e econômica do continente latino-americano no contexto do século 21

Manifestantes protestam na Argentina, em memória dos desaparecidos durante o regime militar (Fonte: Flickr/2012)

O processo de dominação territorial promovido por países europeus durante o período colonial chegou ao fim há centenas de anos, mas o continente ainda sofre para conquistar sua autonomia econômica. A questão é evidenciada quando a situação política e econômica dos países da América Latina é frequentemente afetada por agentes e fatores externos, como guerras, conflitos internacionais ou sanções econômicas. 

“A América Latina não está apenas inserida de uma maneira passiva nessas relações, mas de uma maneira ativa, sofrendo constantemente com essas rearticulações globais e também com suas respostas internas aos movimentos que se impõem globalmente”, afirma Thomaz Delgado, mestre em relações internacionais pela USP.

Delgado defendeu, em 2023, sua dissertação intitulada A reconfiguração do imperialismo na América Latina durante o século XXI, realizada no Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, com a orientação da professora Rossana Rocha Reis. O objetivo é compreender as novas dinâmicas de dominação que ocorrem no contexto do capitalismo global, sobretudo na América Latina.

“A relevância e a atualidade do conceito de imperialismo são dadas pela realidade concreta”, afirma Delgado. Segundo ele, essa realidade seria o sistema capitalista e suas características de conflito e de desigualdade estrutural. Diferente da definição do imperialismo pré-capitalista, associada à dominação territorial, o conceito é trabalhado dentro de uma lógica econômica dentro do próprio sistema. 

Em sua dissertação, o pesquisador cita trabalhos de autores como David Harvey e Ellen Wood para explorar a definição de imperialismo contemporâneo, que se relaciona com uma fase mais recente do sistema capitalista. “A transição do fordismo ao pós-fordismo é um momento de movimentação do eixo de acumulação capitalista, que deixa de ser predominantemente nacional para se tornar internacional”, afirma Delgado.

Ainda sobre o pós-fordismo, a pesquisa cita características da nova reconfiguração do sistema: precarização e informalidade do trabalho; financeirização, ou seja, transações comerciais realizadas pelo sistema financeiro, como bancos e bolsa de valores e não pela atividade produtiva; privatizações; desemprego estrutural; mercantilização – transformação em atividade lucrativa – de bens comuns e recursos até então livres, como a natureza e o conhecimento; entre outras características.

Impactos na América Latina

A respeito do contexto latino-americano no século 21, o pesquisador destaca que para além das transformações do capitalismo global, é necessário analisar as tendências políticas regionais. Apesar de cada país da América Latina apresentar diversas particularidades, Delgado chama atenção para duas tendências que afetaram grande parte do continente: a Onda Rosa e a Onda Conservadora. 

Se por um lado a Onda Rosa representou, do início desse século até 2016, um momento em que houve ascensão de chefes de Estado de esquerda em diversos países, a Onda Conservadora surge concomitantemente a partir de 2009, com a ascensão de líderes de direita no continente. 

É nesse recorte temporal que Delgado se dedica a analisar as particularidades de cada país e apresenta o conceito de guerras híbridas: uma situação de guerra indireta, instrumentalizada por meio de mecanismos políticos, militares, jurídicos e populares, como a cooptação das massas. 

A dissertação aborda esse contexto das guerras híbridas, que se relaciona diretamente com a transição da Onda Rosa para a Onda Conservadora. “É uma mudança dinâmica que se iniciou antes do golpe de 2016 no Brasil. Ela é marcada por uma sucessão de golpes de Estado na América Latina, como o golpe em Honduras (2009); no Paraguai (2012); no Brasil (2016); tentativa de golpe na Venezuela (2019); e golpe na Bolívia (2019).” 

Delgado ressalta que o cenário atual do continente é de reconfiguração e rearticulação dos mecanismos do imperialismo. “Essa reconfiguração é caracterizada justamente pelas guerras híbridas, que conduziram a golpes de Estado com o objetivo de implementar uma regulação neoliberal e promover um realinhamento político nos países da região.”

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