Interconexão entre estruturas de saneamento e de redes de biometano pode ser vantajosa, segundo estudo

Técnica ainda não utilizada no Brasil pode trazer benefícios para regiões periféricas e rurais, aproveitando os gases produzidos no processo de saneamento para geração de energia

[Lâmpada com uma muda dentro - Pexels]
[Lâmpada com uma muda dentro - Pexels]

A tese Sinergias entre infraestruturas essenciais: o caso do saneamento e da energia no Brasil através de projetos de biometano em redes locais da engenheira e doutora em Ciências, Taluia Croso, desenvolvida no Instituto de Energia e Ambiente (IEE), analisa as medidas socioeconômicas da interconexão de redes de saneamento com redes de abastecimento de biometano. Para isso, realiza comparações com outros programas do gênero, como o Luz Para Todos e o Luz no Campo. Taluia explica que um projeto dessa natureza aproveitaria o biometano emitido do esgoto coletado e o retornaria para a rede de abastecimento de energia a biogás da mesma região, ou mesmo da própria estação de tratamento. 

A análise também se embasa no cumprimento da Lei 14.026/2020, conhecida como o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, o qual estabeleceu metas para a universalização do saneamento básico, além de buscar atrair investimento privado para o setor. O aproveitamento dos recursos pela sinergia das redes também vai em encontro com os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pela ONU, mais especificamente com o 6 (água potável e saneamento), o 7 (energia limpa e acessível) , e o 13 (ação contra a mudança global do clima). O Plano de Ação Climática e Desenvolvimento Sustentável para São Paulo 2050 (PAC-2050) também possui como meta extinguir o uso de combustíveis fósseis, o que abriria caminho para uma maior comercialização e aproveitamento do biogás.

Barreiras para a implantação

Entretanto, uma solução estrutural como a analisada, por si só, não é suficiente. Existem barreiras reguladoras que devem existir – principalmente referentes à qualidade do gás oferecido –, além de desafios econômicos e socioculturais, o que dificulta ainda mais sua implantação. “Quando você entra nessa questão do saneamento, percebe que existe uma identidade local que precisa ser respeitada, e você precisa trabalhar junto com aquela comunidade para entender quais são as necessidades”, aponta Taluia, “quem vai realmente cuidar daquilo é a população local”.

Quanto aos riscos da interconexão de redes, Taluia explica que o gás natural é diferente do gás liquefeito de petróleo (GLP). O GLP é um gás mais denso que o ar, possui um risco maior de gerar explosões, uma vez que não se dispersa na atmosfera sem que haja ventilação, e, por isso, é alvo de  uma regulação mais rigorosa da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil (ANP). Já o gás natural, é mais leve que o ar, justamente o que torna precisa uma rede de distribuição. ”Uma explosão de gás natural não é comum, e o biometano seria uma molécula química similar ao gás natural”, destaca. “Entretanto, a manutenção das redes é essencial para garantir a segurança da população e evitar as emissões fugitivas de metano para a atmosfera”.

A engenheira salienta a importância de políticas públicas para a implementação de mudanças como essas, pois, no caso das regiões rurais, o custo dessas estruturas seria muito alto em proporção à quantidade de pessoas que pagariam pelo serviço e, ainda que fossem geradas cotas sociais, o investimento não teria garantia. Uma alternativa a isso seria a venda do biometano gerado, visando o desconto na taxa de serviço, o que ainda é um cálculo superficial, tendo em vista a falta de estruturas já implantadas para um estudo mais preciso.

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