Diastemas são multifatoriais e também estão relacionados a concepções étnicas e culturais

O “espacinho” no sorriso, comum entre os dentes incisivos centrais superiores, pode revelar fatores culturais. Crédito: ilustração vetorial por Aldrey Olegario.

Em 2003, um estudo publicado pelo American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopaedics divulgou que a ocorrência do diastema da linha média variava entre 1,6 e 25,4% em adultos, caracterizando os diastemas como uma das características mais recorrentes quando se trata da dentição permanente. O diastema é a forma como são chamados os espaçamentos entre os dentes. É uma característica comum e multifatorial, o que significa que diferentes fatores podem ocasionar seu aparecimento. 

Em entrevista à Agência Universitária de Notícias (AUN), o professor do Departamento de Ortodontia da Faculdade de Odontologia da USP, Jorge Abrão, explica que as principais causas que podem determinar um diastema são dentes supranumerários, freio labial mais acentuado entre os incisivos, o espaçamento fisiológico que ocorre na infância, volume ósseo maior que o dentário e a hereditariedade. Sobre a última, o professor acrescenta que é comumente determinada por genes dominantes, que vão se repetir de geração em geração, muito frequente na raça negra, por sinal”.

Algumas dessas causas são naturalmente revertidas e os diastemas se reduzem ou se fecham, é o caso que acontece durante a troca dos dentes em crianças e na redução natural do freio labial. Para se diagnosticar a origem de um diastema e avaliar a necessidade de intervenção, são necessários exames clínicos e radiográficos. Abrão explica que o tipo de exame mais comum é a radiografia panorâmica, já que permite a visão de todos os dentes. 

Além das causas citadas, existem alguns hábitos deletérios que podem favorecer o desenvolvimento dos diastemas. “O mais comum é sucção de dedo. Quando a pessoa chupa o dedo, significa que ela pode jogar os dentes para frente e jogando os dentes para frente pode se promover o diastema. Outro hábito chama-se interposição de língua. Existem pacientes que têm deglutição atípica, que é quando ele deglute e interpõe a língua entre os dentes e empurra os incisivos. São os maus hábitos mais frequentes”, explica.

A respeito das possíveis consequências dos diastemas, o professor da USP explica que devido aos espaçamentos, pode se ocorrer um problema a nível gengival, em razão da interposição de alimentos e ressalta sobre os quadros conjuntos. “Alguns pacientes que têm deglutição atípica junto com o diastema apresentam um quadro chamado de mordida aberta, porque não foi só o incisivo que veio para frente. Aí tem que ser corrigido, porque ele vai ter problema com fonética”. Entretanto, Abrão destaca que a maior preocupação da população quanto aos diastemas é em relação à estética.

Sobre a estética, esta varia conforme concepções culturais. Em países africanos, por exemplo, ter diastemas, entre os incisivos centrais superiores, por exemplo, é uma característica benquista e, em algumas vezes, até formada artificialmente. Uma pesquisa chamada “Transcultural perception of maxillary midline diastema”, publicada no The International Journal of Esthetic Dentistry, avaliou a percepção interétnica do diastema da linha médias em seis zonas geográficas da Nigéria e obteve como resultado uma característica que foi considerada como um fator atrativo por todos os grupos participantes. 

O professor da USP também comenta a respeito das concepções estéticas na sociedade atual. “Hoje em dia, existe um conceito muito grande de se fazer tratamentos estéticos, na região anterior, principalmente, em que se usa faceta, lente, uma série de recursos, próteses, para deixar todos os dentes homogêneos, porque na sociedade atual é vendido na mídia — e isso é importante — ter um sorriso branquinho, todos os dentes iguais, tudo por igual”, ressalta.

Existem inúmeras opções para quem quer optar por fechar os diastemas. Eu indicaria sempre para os diastemas a utilização de aparelhos fixos, que podem ser variados. Hoje no mercado, nós temos os aparelhos fixos tradicionais e existem os alinhadores, que são ‘plaquinhas’ transparentes que também fazem esse trabalho e são esteticamente bem recebidos”, explica ele. 

Como profissional da área de Ortodontia, Jorge Abrão, enfatiza a importância da aplicação de métodos naturais, como aparelhos fixo ou móvel, mas comenta também que “independente da orto, que é um caminho natural, existem outros caminhos, que são os caminhos com próteses, facetas, laminados, lentes que podem fechar esses espaços. A diferença é que quando o paciente faz via prótese o tempo [de tratamento] é mais curto, mas é artificial e quando faz com orto o tempo [de tratamento] é mais longo, mas é natural”, revela.

Confira também a reportagem em vídeo:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*