Risco de combustão de máscaras comuns em curtos-circuitos coloca eletricistas em perigo

Categoria precisa da aprovação de uma medida legal para regulamentação sobre o uso obrigatório de máscaras contra a Covid-19

Créditos: Sigmund/Unsplash

Um estudo, concluído em dezembro de 2020, do Laboratório de Ensaio de Vestimentas (LEVe), que integra o Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), comprova que as máscaras de proteção contra a Covid-19, indicadas para uso obrigatório durante a pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por órgãos nacionais do setor, podem facilmente entrar em combustão na presença de eventos de arco elétrico, um fenômeno que pode ser originado a partir de um curto-circuito, apresentando alto risco aos profissionais eletricistas.

Assim como nas demais profissões, os trabalhadores do setor elétrico e correlatos estão sujeitos à lei de obrigatoriedade do uso de máscaras, que não traz nenhuma especificação de modelo para atividades em que o uso de tecidos comuns pode agregar risco de acidentes. Para comprovar e documentar os riscos adicionais ao profissional eletricista, os pesquisadores do LEVe se juntaram a usuários e às empresas vinculadas ao Comitê Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que tem apoio da Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho (Animaseg) na Comissão de EPI para Efeitos Térmicos, e realizaram o estudo.

Após a finalização da pesquisa, o IEE alertou à Secretaria Especial de Previdência e Trabalho sobre a necessidade de implementação de uma regulamentação para a categoria, que impeça o uso de máscaras comuns no exercício da profissão e defina o uso de máscaras feitas 100% de tecidos antitérmicos, ratificando, ainda, a indispensabilidade dos demais EPIs, já legislados à atividade, a se somarem ao item de proteção biológica.

Como ainda não foi implementada qualquer providência a respeito, esses profissionais seguem com pouca ou nenhuma informação e usam máscaras comuns (caseiras ou cirúrgicas) em ambientes de trabalho com energia elétrica em que os limites de aproximação os sujeitam aos efeitos térmicos do arco elétrico.

Confira detalhes do estudo inédito

Para esse estudo, foi aplicada uma energia incidente de 8 a 12 cal/cm2 que é a categoria de risco para uso de proteção facial sem capuz, definida no padrão norte-americano para segurança elétrica no local de trabalho (NFPA 70E).

O grupo de pesquisadores, empresas e apoiadores cederam 17 modelos de diferentes tipos de máscaras utilizadas comumente na intenção de evitar a disseminação do Coronavírus, dentre modelos com tecidos comuns, respiradores e antitérmicos.

Para cada arco elétrico foram observadas três amostras do mesmo tipo de máscara, sempre em posição frontal, em duas rodadas: uma sem e uma com protetor facial, EPI já certificado e regulamentado para uso obrigatório no setor de energia elétrica. O objetivo foi definir uma amostragem mínima para levantamentos conclusivos. O teste determinou quais máscaras resistem ao limite de energia incidente.

Cada ensaio foi filmado e fotografado nas condições antes e depois, e também teve seus registros de dados térmicos e qualitativos processados. Confira alguns deles:

Detalhes da composição das máscaras:

  • Máscara caseira de 3 camadas
    Composição: 2 camadas de tecido 100% algodão e 1 camada de tecido sintético.
    Tecido de proteção térmica? Não
    Se enquadra na recomendação da OMS? Sim
  • Máscara azul tecido FR 2 camadas
    Composição: 1ª camada 98% aramida e 2% antiestético, 2ª camada do meio filtrante 100% aramida.
    Tecido de proteção térmica? Sim
    Se enquadra na recomendação da OMS? Sim
  • Máscara PFF 2 com válvulas
    Composição: 1ª camada de tecido 100% algodão FR e 2ª camada de polipropileno (filtrante) (60 g/m²).
    Tecido de proteção térmica? Não
    Se enquadra na recomendação da OMS? Não

Conclusões do estudo

Para efeito do experimento, quando submetidas ao arco elétrico sem a segurança do protetor facial, as máscaras classificadas como modelos não resistentes ao calor apresentaram em todos os eventos pelo menos uma das evidências de combustão, derretimento, deformação ou desprendimento. Esses modelos não resistentes ao recebimento de calor comportam os seguintes tipos de características: máscaras caseiras feitas com tecidos comuns, PFF2 sem válvula expiratória e PPF2 com válvula expiratória. Vale ressaltar que todo modelo de máscara com válvula é contraindicado pela OMS para uso na prevenção da disseminação da Covid-19.

Em alguns casos, como das PFF2 sem válvula, ocorre a ruptura do elástico no instante em que o arco é aplicado, sujeitando toda a face do manequim à exposição. Já a máscara PFF2 com válvula apresenta derretimento da peça, que pode caracterizar grave risco de segurança.

Nos ensaios com EPI facial, em exposição frontal, mesmo as máscaras caseiras não sofreram danos significativos, o que ratifica a eficácia dos protetores, mas não dá aval para o uso de máscaras de tecidos comuns por baixo deles. A explicação para isso é que, em campo, os ângulos de incidência do arco elétrico não são previsíveis e, mesmo a partir de um mínimo contato com partes desprotegidas desses tipos de tecido, há um potencial de inflamar a máscara por baixo do visor, comprometendo a segurança da pessoa.

Já as máscaras com proteção térmica se mostraram resistentes, sem uso adicional da proteção facial. Nas diferentes composições avaliadas, todas promoveram proteção contra os efeitos térmicos do arco elétrico. O que significa que os sensores por trás do tecido das máscaras não apresentaram sobreposição à curva de Stoll, parâmetro utilizado para identificar queimaduras de segundo grau. Desta forma, na região protegida pela máscara, não foram evidenciados riscos adicionais.

Assim, o estudo comprovou que o uso de máscaras comuns e PPF2 pode implicar em riscos adicionais relacionados a efeitos oriundos de arcos elétricos. Os ensaios com as máscaras de proteção térmica somadas à utilização de EPIs de proteção facial apresentaram os melhores resultados, comprovando ser essa a forma mais eficaz para harmonizar a segurança do trabalho com a proteção contra infecção por Coronavírus.

Vale ressaltar que as máscaras com o objetivo de proteção contra a Covid-19 não podem ser classificadas com índices e parâmetros de resistência ao arco elétrico, e não são tipificadas para esse tipo de proteção. Já existem EPIs regulamentados e específicos para esses serviços, a preocupação dos pesquisadores nesse estudo foi entender as implicações de adicionar as máscaras de proteção biológica nessas circunstâncias.

Conheça o time que desenvolveu o estudo:

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