Expansão de cursos de medicina sem vagas de residência agrava crise de especialistas no Brasil

Estudo da Faculdade de Medicina da USP aponta desproporção entre formação e especialização, prejudicando o atendimento público em saúde e acentuando desigualdades regionais

Fachada da Faculdade de Medicina da USP. Foto: Divulgação FMUSP

O Brasil vive hoje um grave descompasso na formação de médicos: enquanto o número de novos profissionais cresce a cada ano, as vagas de residência médica não acompanham esse ritmo. Essa é a principal conclusão do estudo Panorama da Residência Médica: Oferta, Evolução e Distribuição de Vagas (2018-2024), coordenado pelo professor Mário Scheffer, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

De 2013 a 2024, o número de estudantes de medicina aumentou 71%, impulsionado pela Lei Mais Médicos, que incentivou a abertura de novos cursos de graduação. Contudo, as vagas de residência cresceram apenas 26% no mesmo período, deixando mais de 210 mil médicos generalistas sem especialização, condição essencial para suprir as necessidades do sistema de saúde. “A residência médica é o padrão-ouro da especialização no Brasil, mas a legislação que deveria garantir uma vaga para cada graduado não foi cumprida”, afirma Scheffer.

Essa disparidade impacta especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), que enfrenta uma carência crítica de especialistas. Doenças crônicas, como câncer e cardiovasculares, além do envelhecimento populacional, ampliam a necessidade de profissionais capacitados. No entanto, áreas estratégicas como Cirurgia Oncológica e Radioterapia viram redução de vagas nos últimos anos, somando a falta profissionais à longa lista de escassez do atendimento público.

A concentração das vagas no Sudeste configura outro obstáculo. A região detém mais de 50% das oportunidades, especialmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Apesar de um leve aumento na oferta em regiões como Norte e Nordeste, muitos médicos não permanecem nesses locais após a especialização. “Além da desigualdade regional, há uma concentração de especialistas no setor privado, que atende uma pequena parcela da população”, ressalta Scheffer.

O estudo também alerta para outro paradoxo: cerca de 20% das vagas de residência médica autorizadas em 2024 ficaram desocupadas, devido à falta de financiamento, infraestrutura e preceptores qualificados. A baixa procura em algumas especialidades agrava o problema, deixando vagas ociosas enquanto a demanda por especialistas cresce.

A pesquisa destaca a urgência de políticas que conectem a expansão das graduações com o aumento proporcional de residências, atendendo às necessidades do SUS e reduzindo as desigualdades regionais. “Sem ações estruturais, o Brasil enfrentará um cenário de escassez de especialistas no médio prazo, comprometendo o atendimento público de saúde”, comenta o professor.

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