Chuvas intensas se tornarão cada vez mais frequentes, afirma especialista

Analisando os casos de Ibirité (MG) e São Sebastião (SP) em seu mestrado, Estella Jesus afirma que atingiu-se um ponto de não retorno, mas danos podem ser evitados

Em São Sebastião, 65 pessoas morreram, faltou energia, água, comida e ocorreram diversos alagamentos e deslizamentos. Imagem: reprodução/ Poder360

As tempestades intensas são fenômenos meteorológicos de grande impacto em todo o Brasil, desencadeando eventos extremos de chuva, ventos, inundações, deslizamentos de terra, e perdas materiais e de vidas. Ibirité (MG) e São Sebastião (SP), em janeiro de 2022 e fevereiro de 2023, respectivamente, sofreram eventos de precipitação intensa, causando mortes, danos à população e danos ambientais. A dissertação de mestrado “Tempestades na Região Sudeste do Brasil: Análises de Dois Episódios Extremos de Precipitação”, de Estella da Silva Jesus, realizado no programa de Meteorologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), sob orientação do professor Ricardo Hallak, analisa os padrões atmosféricos e os fatores locais que contribuíram para a ocorrência desses eventos, e a especialista ressalta que as mudanças climáticas tornarão sua ocorrência cada vez mais frequente.

Ibirité e São Sebastião são localizadas em encostas de morros: a primeira fica próxima ao Morro dos Veados e a segunda, na Serra do Mar. Segundo Samantha, as chuvas intensas que atingiram as cidades foram causadas por um fluxo de vento e nuvens carregadas que não conseguiram atravessar essas encostas. “Tudo que tem que chover daquela nuvem chove antes de passar a montanha, que é onde estão as cidades. [As chuvas] ficaram contidas ali e geraram muita precipitação”, comenta. No caso da cidade mineira, as chuvas foram causadas pela Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e um vento perpendicular ao Morro. No litoral paulista, foram causadas pela alta temperatura do mar: “quando a temperatura está muito quente e tem bastante umidade condensada, tem convecção, [formação de] nuvens e, enfim, chuvas. O fluxo do vento estava contra a Serra do Mar, e aí também fez chover”.

A diferença dos dois casos foi os fatores que provocaram os ventos contra os relevos. Segundo a especialista, em São Sebastião, a causa foi um fator dinâmico, um evento climático mais localizado que influencia a dinâmica de um local – no caso, o aumento da temperatura da superfície do mar próxima à cidade. Em Ibirité, as chuvas foram causadas por um fator sinótico, ou seja, um evento climático em grande escala (ZCAS) que influencia uma região.

Para realizar sua pesquisa, Estella utilizou o sistema de análise ECMWF Reanalysis v5 (ERA5), estimativas de precipitação via satélite IMERG com assimilação de medidas pluviométricas dos conjuntos MERGE, imagens no canal infravermelho do satélite GOES-16, e dados pluviométricos do CEMADEN localizados nos municípios mais atingidos. Através deles, chegou à conclusão de que em ambos os casos, a topografia local teve extrema importância na distribuição da precipitação, contribuindo para a intensificação da convergência de umidade e para a formação de chuvas intensas.

A especialista afirma que as mudanças climáticas, como o aumento da temperatura dos oceanos, são a grande causa desses desastres. “A atmosfera precisa estar em equilíbrio. Se tem alguma coisa desarmonizando isso, como um El Niño muito intenso, uma temperatura da superfície do mar muito quente, ou outras oscilações, vai chover mais”, explica, “e a gente vai ver esses eventos extremos acontecendo com cada vez mais frequência”.

Estella afirma que atingiu-se um ponto de não retorno: um limiar que, se ultrapassado, desencadeia a transformação de um ecossistema e raramente tem chances de voltar ao seu estado original. “O ano de 2024 está sendo o ano mais quente até agora registrado, e tudo que acontecer agora vai acarretar ou em falta de chuva ou calor muito intenso, ou chuva muito intensa ou frio muito intenso”, comenta.

No entanto, ela relembra que a ciência também pode ser utilizada como forma de prevenção para os danos que as chuvas causam: “a gente faz ciência para ajudar as pessoas e para prevenir. A gente sabe onde pode e onde não pode fazer casa, ou prever as chuvas e eventos extremos que vão acontecer. Dá pra evitar e contingenciar [danos], fazer programações”.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*