Tese de doutorado traz pesquisa inédita sobre vida e obra de Cleo de Verberena, a primeira cineasta brasileira

Diante da falta de informação publicada sobre a artista, Marcella Grecco de Araujo, doutora pela ECA-USP, teve que vasculhar arquivos de jornais e conversar com familiares para a pesquisa

Cleo de Verberena, em entrevista para a revista Cinearte em 28 de maio de 1930, afirmou que, das atrizes brasileiras, ela admirava Carmen Santos e, das estrangeiras, Greta Garbo era sua favorita [Imagem: Cinearte/Hemeroteca da Biblioteca Nacional]

A vida e obra de Cleo de Verberena, pseudônimo de Jacyra Martins da Silveira, a primeira mulher a dirigir um filme no Brasil, foi tema de pesquisa inédita de doutorado na ECA-USP. Marcella Grecco de Araujo, que conquistou o título de doutora em Meios e Processos Audiovisuais com a tese, afirma que o fato de existirem poucas informações publicadas sobre a artista foi o que a motivou para a escolha do tema. “Eu me perguntava por que tinha tão pouco material escrito sobre ela. E aí, junto com a minha orientadora, a gente decidiu ir atrás e ver o que conseguiríamos encontrar. No início eu não sabia nem se encontraria material suficiente para virar uma tese de doutorado”.

Como fontes de pesquisa, Marcella teve que vasculhar acervos e hemerotecas, arquivos que reúnem jornais, revistas e publicações diversas, como a da Biblioteca Nacional, além de conversar diretamente com familiares da cineasta. “Quando comecei a vasculhar os arquivos da Biblioteca Nacional, fui encontrando várias Cineartes falando sobre ela. Eu percebi que tinha muita coisa guardada esperando para vir à luz”, relata a pesquisadora. A Cinearte foi uma revista voltada à perpetuação e à divulgação do cinema brasileiro, e esteve ativa de 1926 a 1942. 

A  cineasta nasceu em Amparo, no interior do estado de São Paulo, em 26 de junho de 1904. Ela mudou-se para a capital em 1923, onde casou-se com Cesar Melani, filho de fazendeiros. Foi nesse contexto de valorização do cinema nacional que fundou, junto ao marido, a Empreza Industrial Cinematographica e Artistica, a EPICA-FILM, em 1930. Naquela época, o cinema era um hobby de jovens da elite e, como alegou Cesar Augusto Melani, filho único do casal e falecido em 2012, o interesse por filmes já era presente na família de Jacyra e pode ter ajudado a unir os dois em matrimônio.

O então marido de Verbenna, que escolheu para si o pseudônimo de Laes Mac Reni, era quem administrava a parte financeira e assinava todas as documentações, enquanto a cineasta cuidava das funções artísticas. Com o selo da EPICA-FILM, Cleo de Verberena produziu seu primeiro filme, onde também atuava como protagonista, denominado “O Mysterio do Dominó Preto”, de 1931. “O cinema nessa época nunca dava retorno financeiro. Eles escolheram começar num período bem difícil, que foi a transição do cinema silencioso para o cinema falado. Pensaram que seria a hora de lançar filmes nacionais, já que os novos que chegavam eram falados em inglês. Acabou que todo mundo quebrou a cara, porque o público preferia ver os filmes em inglês mesmo, pois, por mais que não entendessem, a qualidade era bem melhor”, explica Marcella.

Apesar da predominância dos filmes importados dos EUA, “O Mysterio do Dominó Preto” foi exibido em cinco cidades, São Paulo, Franca, Colina, Curitiba e Jacareí e, segundo apurou Marcella, parece ter sido bem recebido pelo público. “Com base nas críticas que saíram e por ter sido exibido em vários cinemas, eu acho que ele deve ter sido filmado relativamente bem. Se ele fosse ruim, estruturalmente e narrativamente falando, ele não teria sido exibido em tantas salas”, analisa a doutora. 

O filme foi baseado em uma novela de Martinho Corrêa, sendo algumas partes adaptadas por Cleo. Na história, Virgílio, interpretado pelo próprio Laes Mac Reni, é um estudante de medicina que, no meio do Carnaval de São Paulo, encontra uma mulher que diz ter sido envenenada. A personagem, interpretada por Cleo, é quem traja uma fantasia de Dominó Preto, e acaba sendo reconhecida por ele como uma antiga paixão. Apesar das tentativas de Virgílio e seu amigo Marcos de salvar a moça, ela morre e eles saem em busca do assassino. 

A figura do Dominó Preto surgiu na commedia dell’arte, uma forma teatral na Itália do século 14. A fantasia, caracterizada por um capuz preto e branco, ficou famosa nos carnavais e se tornou referência comum a muitas histórias de mistério do início do século XX. [Imagem: Acervo Cinédia/Alice Gonzaga]
O filme está perdido, mas Marcella conseguiu simular sua reconstituição a partir da novela, que encontrou num sebo de Curitiba, e das fotos divulgadas à época na Cinearte. Por ter sido feito em película de nitrato, material altamente inflamável, a pesquisadora acredita que a única cópia do filme foi descartada por Cleo após as exibições. 

Para Marcella, a presença de uma mulher no cinema do início do século 20 foi essencial para que outras se espelhassem e pudessem se sentir representadas. “Além de ter escolhido um filme com uma temática ousada para o período, ela se declarou diretora de cinema numa época em que para as mulheres não era viável nem trabalhar fora de casa. A Cleo de Verberena dirigiu uma equipe composta majoritariamente por homens, é incrível imaginar que uma mulher fez isso no começo da década de 30.”

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