Lixo nos mares: como resolver este problema?

Plano de monitoramento e avaliação do lixo busca compreender e combater a poluição marinha no estado de São Paulo

Imagem: Flickr

A poluição dos mares e oceanos tem ganhado grande destaque na mídia nos últimos anos. Afinal, não é difícil notar a urgência deste problema: basta uma breve caminhada pela orla da praia para perceber a quantidade de lixo acumulado. Os resíduos são diversos, vão desde copinhos plásticos, até embalagens de produtos de limpeza, sofás e pneus.

Apenas no Brasil, são descartadas 325 mil toneladas de lixo plástico nos oceanos a cada ano, de acordo com relatório divulgado pela Oceana. Estudos da ONU Meio Ambiente estimam que, se nada for feito, até 2050 teremos mais plástico do que peixes vivendo nos mares. Mas por onde começar a reverter este cenário tão complexo?

Os primeiros passos

As questões sobre lixo no mar no Brasil são insuficientes e difusas. Mesmo que existam planos de combate à poluição, ainda não há dados organizados sobre o tema, que ajudem os gestores a pensar num processo de combate.

“O conceito de ‘lixo no mar’ é mais amplo do que a gente pensa. O lixo em si, como poluição, são resíduos sólidos de origem humana que foram descartados, abandonados ou perdidos”, explica Carla Elliff, oceanógrafa e pesquisadora pós-doutoranda do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, em entrevista à AUN. É por isso que, antes de pensar no combate, precisamos entender de onde vem o lixo e como ele está chegando ao oceano.

Foi nesse contexto que professores e pesquisadores do IO e do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP criaram o Plano de Monitoramento e Avaliação do Lixo no Mar para o Estado de São Paulo (PEMALM), em parceria com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, a Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA) e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).

A iniciativa busca monitorar e analisar os resíduos encontrados nos mares e praias do estado de São Paulo, para entender quais são os verdadeiros níveis da poluição. Para Carla, esse diagnóstico é necessário antes de tomar ações para tentar resolver o problema: “O plano de monitoramento é um primeiro passo antes da gente conseguir pensar num projeto de combate estadual”, explica.

O PEMALM se desenvolveu como uma política pública participativa e baseada na ciência. Para levantar dados, ao longo de todo o processo foram feitas consultas à literatura científica e aos atores envolvidos no tema — ou seja, as pessoas e instituições que produzem, ou têm potencial para produzir, informações sobre o assunto. Na publicação, foi reunido um conjunto de indicadores de geração, exposição e impactos do lixo, que pode ajudar a gestão pública a disseminar boas práticas e encontrar os melhores caminhos para acabar com o problema.

A questão do plástico

Estima-se que 80% do lixo nos oceanos seja formado por plástico, sobretudo sacolas e garrafas. A predominância do material pode ser explicada pelas características que  aumentam sua durabilidade, ao mesmo tempo que possibilitam que ele se espalhe rapidamente. “É um tipo de material muito comum. No dia-a-dia, nós usamos muito mais itens plásticos do que de vidro”, comenta a pesquisadora.

Seja pela deposição do material sobre as águas e praias, pela dispersão de organismos e espécies exóticas pelo litoral ou até provocando a morte de animais, os desequilíbrios que o plástico causa no sistema marinho são diversos. 

Mas o problema vai além do que podemos enxergar. Os micro e nanoplásticos — fragmentos de 0,5 cm, até partículas menores que 0,1 mm — já são encontrados inclusive nas profundezas do oceano. 

“É possível que já tenha plástico na nossa água mineral, de torneira e até na chuva. Se está no oceano, chegou lá de algum jeito. Não é só o lixo no mar que é um problema, a gente na verdade está consumido de plástico”, relata.

É preciso “fechar a torneira”

Ainda que a situação dos oceanos seja alarmante, a pesquisadora acredita que podemos evitar piorá-la. “Nós temos que aceitar que fizemos estrago e não tem como reverter completamente. Mas não precisamos continuar mantendo esse nível de consumo”, comenta Carla. 

“O lixo é não é o problema em si. Ele é o sintoma que nós, como sociedade, estamos tendo perdas nos nossos resíduos, devido à má gestão e às más condutas na forma de consumir. Não adianta apenas limpar as praias. Precisamos cortar a raiz de onde está entrando esse lixo e fechar essa torneira”, conclui. 

1 Comentário

  1. Estive na praia da Fortaleza _ Ubatuba SP entre os dias 01 e 04 de outubro p.p., e caminhando pela praia notei que não há conchinhas, mas um excesso de restos de construção.

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