Bactérias resistentes são encontradas fora do meio hospitalar

A pandemia que enfrentamos hoje é causada por um vírus, o SARS-CoV-2, mais conhecido popularmente como coronavírus. Entretanto, o aumento considerável de complicações quanto a doenças bacterianas é também uma das maiores preocupações de saúde pública. Este cenário tem explicação pela elevação considerável de bactérias resistentes em ambientes diversos, independente do grau de risco de infecção que o local pode representar, desde os potencialmente mais perigosos, como hospitais, até os teoricamente mais seguros, como parques públicos.

Quando o assunto é o crescimento de populações de bactérias resistentes, a discussão está entorno do uso indiscriminado de antibióticos. O controle deste cenário passa pela conscientização do paciente, dos profissionais de saúde e dos agentes públicos. Afinal, cada antibiótico está relacionado com um agente causador específico da infecção, de modo que um mesmo medicamento não é adequado para o tratamento de múltiplas doenças bacterianas.

As bactérias são microorganismos com uma capacidade infinita de transformação, perdendo apenas para os vírus no quesito mutação, fato que reflete a pandemia que vivemos hoje por conta do novo coronavírus. Deste modo, as bactérias podem trocar genes de resistência a certos medicamentos, com extrema facilidade e rapidez. E o uso indevido de antibacterianos apenas elimina os agentes não resistentes, possibilitando aos multirresistentes menor competição e maior multiplicação, agravando o quadro.

Nesse sentido, a pesquisadora Miriam Rodriguez Fernandes, graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário Lusíadas (UNILUS) e doutorado em Análises Clínicas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP) explicou a forma que as bactérias que antes eram eliminadas por determinado fármaco passam a adquirir resistência. Com destaque para como “a resistência transferível mediada por elementos móveis, chamado de plasmídeos, é um grande problema. Pois a bactéria que apresenta um plasmídeo com um determinado gene de resistência pode transferir esse material genético a uma bactéria da mesma espécie ou até mesmo de espécies diferentes.”

Esse mecanismo de transferência das bactérias é bastante associado a casos de infecção hospitalar, por conta da diversidade de espécies desses microorganismo e o uso desmedido de antibióticos. Resultando na disseminação em leitos e demais ambientes hospitalares, através de procedimentos técnicos e também por meio da circulação dos profissionais da saúde.

Preocupações no aumento de bactérias resistentes

Com o uso desmedido dos antibacterianos em inúmeras atividades, estendendo-se desde a saúde humana e animal até o agronegócio, o cenário é considerado extremamente preocupante. Afinal, há um esgotamento de ações terapêuticas, com elevação dos custos de tratamento, na busca por outros fármacos que combatam infecções mais complexas. De modo a ocasionar um aumento de mortalidade, justificada pela maior permanência nos leitos de hospital, que são locais de extremo risco por conta da contaminação cruzada, até a recuperação completa.

Cerceando apenas o ambiente hospitalar e considerando os inúmeros procedimentos cirúrgicos, que são porta de entrada para agentes invasores, como é o caso das bactérias multirresistentes. Deve-se ter atenção redobrada em relação a quando e quais medicamentos usar. Além do uso de todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) na manipulação de pacientes, com a higiene adequada de todos os espaços, como também o isolamento de enfermos em casos específicos, buscando evitar a contaminação de  outras pessoas. Ainda mais considerando o momento atual no qual os leitos de hospitais estão com foco nos casos de coronavírus, uma doença com potencial de contaminação enorme.

Já a preocupação quanto ao ambiente doméstico, e a possibilidade de se tornar um veículo para transmissão de bactérias resistentes, se dá através de pacientes hospitalizados que retornam às suas casas. Por conta do potencial de disseminação dos genes de resistência entre seus familiares, animais de estimação e demais pessoas próximas, como vizinhos, gerando um ciclo de contaminação que pode se estender por todo o bairro e comunidade próxima.

Agentes bacterianos originalmente hospitalares atingem novos ambientes

Uma série de bactérias, que são frequentemente encontradas em pacientes hospitalizados, agora também estão presentes em pessoas da comunidade que não passaram por internação médica. São as Acinetobacter baumannii, Klebsiella aerogenes, Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Enterococcus faecium, Enterococcus faecalis, Staphylococcus aureus, Candida albicans e Cryptococcus neoformans. Essa lista apresenta as bactérias que estão entre as que mais causam infecções hospitalares, e ainda as que mais têm desenvolvido resistência à antibióticos. A explicação tem base na capacidade de sintetizar uma enzima que inativa os medicamentos mais bem-sucedidos no combate a infecção, sendo microorganismos não suscetíveis a três ou mais compostos potencialmente mais efetivos anteriormente.

As dez espécies de bactérias descritas anteriormente são as que apresentam inúmeras facilidades de contágio, possibilitando transmissão de patógenos na interface humana-ambiente-animal. Assim, as relações tornaram-se potencialmente mais perigosas, tendo em visto o ciclo de contágio. Visualize um ambiente aquático extremamente contaminado com bactérias multirresistentes, e animais domésticos — cães e gatos — que bebem dessa fonte, e posteriormente voltam para casa, acabam por contaminar seus donos, posteriormente contaminando demais pessoas próximas, está feito o ciclo de contágio com ausência de contato direto com hospital.

Estes ambientes aquáticos contaminados já são realidade e estão bem próximos à população, como conta Louise Teixeira Cerdeira doutora em ciências pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP): “já foram encontradas diversas bactérias resistentes, que têm genes associados ao ambiente hospitalar em ambientes aquáticos urbanos. É o caso do parque Ibirapuera, rios Tietê e Pinheiros, além de praias ao longo do litoral paulista. Isto deve-se ao descarte irregular de esgoto doméstico, mas principalmente a questão industrial e hospitalar.”

Regulamentação do uso de antibióticos

Embora o panorama pareça desanimador, há órgãos e pessoal especializado tentando encontrar alternativas para diminuir o uso desmedido de antibacterianos. A especialista em biomedicina e microbiologia Rodriguez Fernandes detalhou os órgãos oficiais envolvidos na regulamentação. “A agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), juntamente com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Coordenação Geral dos Laboratórios de Saúde Pública implantaram a Rede Nacional de Monitoramento da Resistência Microbiana em Serviços da Saúde (Rede RM), com objetivo de detectar, prevenir e controlar a resistência bacteriana em hospitais brasileiros.”

Além do uso controlado de antibióticos em farmácias, com a proibição da venda de antimicrobianos sem prescrição médica, recomendando a retenção das receitas nas drogarias, há o controle em outros setores. Na veterinária, com contenção de aditivos antibacterianos na composição das rações para aves, bovinos e suínos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

O avanço de ações efetivas, por parte de órgãos responsáveis, que buscam controlar o uso indiscriminado de antibióticos é a forma de diminuir a proliferação de bactérias resistentes. Deste modo, diminuindo os riscos de infecções como maior grau de complexidade e que representam um sério problema de saúde pública.

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